Evoluindo um Sistema de Vendas Legado para uma Plataforma
B2B Escalável
A plataforma é uma ferramenta interna de gestão de ingressos B2B, projetada para operações de alto volume, como viradas de lote, promoções complexas e precificação dinâmica.
Ela surgiu como uma modernização de um sistema legado com mais de 15 anos de história. No entanto, por ter sido inicialmente tratado estritamente como uma atualização técnica, os fluxos originais foram simplesmente transplantados para uma nova interface, herdando e, em alguns casos, amplificando problemas críticos de usabilidade.
O desafio
Anos de evolução sem controle estruturado resultaram em uma experiência fragmentada e inconsistente, que dependia fortemente de conhecimento prévio. Embora tecnicamente funcional, o novo sistema apresentava lacunas claras de usabilidade que impactavam diretamente a operação:
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Sobrecarga Operacional: As tarefas exigiam múltiplas etapas manuais e repetitivas, aumentando o tempo de execução e o risco de erro.
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Obscuridade Técnica: Status essenciais e informações do sistema estavam "escondidos" atrás de termos técnicos excessivos.
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Curva de Aprendizado Acentuada: A jornada não era intuitiva; novos operadores levavam mais de 4 semanas para atingir autonomia básica, de acordo com dados recorrentes de entrevistas e acompanhamento operacional (shadowing).
O sistema não falhou em capacidade, falhou em permitir que as pessoas
usassem essa capacidade de forma eficiente.
Meu Papel
Entrei no projeto como a única Product Designer quando ele já estava em andamento. Durante a fase de migração, os stakeholders notaram uma resistência significativa na adoção por parte dos operadores, que preferiam o sistema antigo ao novo. Na ausência de um Product Manager (PM) dedicado, minhas responsabilidades incluíram:
Estruturar a investigação do problema e diagnósticos de UX;
Definir a priorização técnica e funcional junto aos stakeholders;
Mediar as necessidades de negócio, restrições técnicas e experiência do usuário;
Definir a estratégia de evolução do produto, passando de correções isoladas para uma abordagem sistêmica.
Antes de começarmos 🤚🏽
Alguns elementos da interface, dados operacionais e fluxos foram adaptados ou anonimizados para preservar a confidencialidade das informações, mantendo a integridade do processo de design.
Onde começamos 🪝
O ponto de partida
Meu trabalho começou resolvendo um ponto de atrito específico no módulo de Precificação:
Os operadores precisavam cadastrar tipos de ingressos individualmente, levando cerca de 15 segundos por item. Em cenários com múltiplos produtos, isso se tornava um gargalo de produtividade.
A solução foi priorizar o redesenho da lógica do banco de dados no front-end junto à equipe de engenharia para permitir o cadastro em lote (bulk registration), mantendo a clareza e o controle do usuário.
O impacto foi imediato: reduzimos o tempo gasto nesta etapa em 85% (de ~15s para 2s por item). Em operações de grande escala, isso representa horas de trabalho manual economizadas por evento, sem aumento de erros.

Demonstração dos estudos à época
De Correção Tática a Visão Sistêmica 🧭
Definindo o Escopo e a Lógica Estratégica
Essa vitória tática serviu como um "aviso preventivo". Provou que o objetivo original do projeto - um simples "lift-and-shift" (migrar sem alterar) dos fluxos legados para uma interface moderna - era insuficiente. Ficou claro que a complexidade do sistema exigia mais do que uma atualização visual; exigia uma evolução estrutural. Essa percepção desencadeou uma fase profunda de Discovery para entender as causas raízes da resistência à adoção.
1. DISCOVERY: Mapeando o "Sistema Invisível"
A modernização inicial falhou em considerar o conhecimento técnico. Através de pesquisa qualitativa, descobri que a aparência "travada" do sistema legado, na verdade, abrigava eficiências de alta velocidade nas quais os operadores veteranos confiavam. Para transformar este legado em uma ferramenta de alta performance, primeiro desconstruí a arquitetura da informação em:
1. Shadowing Operacional: Identifiquei que os operadores não eram apenas resistentes à mudança, eles estavam protegendo sua "memória muscular". A nova interface, embora mais limpa, havia fragmentado seus fluxos de trabalho de alta velocidade.
2. Desconexão do Modelo Mental: Entrevistas revelaram que lógicas de negócio essenciais não estavam documentadas e ficavam "escondidas" sob termos técnicos. Usuários se sentiam perdidos na nova versão.
3. Auditoria de Contexto Perdido: Mapeei o ciclo de vida de um ingresso para ver onde a interface falhava em fornecer visibilidade de status e agilidade, o principal motivo para os usuários quererem voltar para a ferramenta legada.

Parte de um de muitos mapas mentais
2. SÍNTESE: Definindo os Desafios Centrais
A fase de discovery revelou que o sistema não era apenas “antigo”, ele era obstrutivo. Para conectar pesquisa e execução, sintetizei os achados em três pilares estratégicos de design. Durante essa etapa, apliquei o framework de Jobs-to-be-Done (JTBD) para garantir que o sistema pudesse escalar entre diferentes níveis de proficiência dos usuários, criando uma base sustentável para Growth:
Feedback Preditivo (Escalabilidade de Suporte): A mudança de um modelo baseado em “erros tardios” para validações proativas reduziu a taxa de falhas em eventos e diminuiu diretamente o custo operacional de suporte conforme o negócio escala.
Eficiência por Processamento em Lote (Velocidade Operacional): A transição do gerenciamento individual para operações de alta velocidade em grupos permitiu que a mesma equipe gerenciasse volumes significativamente maiores de dados.
Clareza Semântica (Redução da Barreira de Onboarding): Tradução de termos técnicos para uma linguagem operacional mais intuitiva. Utilizando a abordagem JTBD, projetei fluxos simplificados para operadores iniciantes, mantendo camadas de eficiência de alta densidade para usuários mais experientes.
3. O BLUEPRINT: Definindo o Padrão Futuro
Com esses pilares, minha primeira grande entrega foi o redesenho do módulo de Cadastro de Produtos. Por ser o fluxo mais crítico e de maior tráfego, serviu como "prova de conceito" para esta nova arquitetura orientada ao crescimento. Este blueprint estabeleceu:
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Novos padrões de interação para entrada de dados B2B complexos e de alta densidade.
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Uma hierarquia visual escalável que prioriza a escaneabilidade sobre a estética.
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Diretrizes fundamentais que garantem que cada módulo futuro contribua para uma experiência de usuário coesa e autônoma.
Infelizmente, essa parte do case não pode ser compartilhada devido a informações sensíveis.
Restrições de Engenharia Moldando a Solução
Ao apresentar essa visão para a engenharia, identificamos um obstáculo: a arquitetura do front-end não suportaria uma implementação em larga escala imediata. Em vez de parar a produção, transformei o blueprint em um "Norte Conceitual" e mudei para uma Estratégia de Melhoria Incremental baseada em uma matriz de Criticidade do Fluxo x Esforço Técnico.
Exemplo: GERENCIAMENTO DE STATUS
Um dos desafios mais complexos envolvia o gerenciamento de status dos eventos. Esse módulo ilustra perfeitamente a transição entre uma visão estratégica de design e uma entrega pragmática e incremental.
O Problema: O sistema possuía regras de negócio altamente específicas, exigindo múltiplas camadas de configuração. Isso dificultava o entendimento dos usuários sobre o que já havia sido concluído e o que ainda era necessário para publicar um evento.
A Solução Incremental:
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MVP: Reintroduzimos inicialmente uma tela simplificada de Status (baseada em uma versão extremamente carregada de dados existente no sistema legado), traduzindo os bloqueios técnicos mais críticos em tarefas compreensíveis e acionáveis para os usuários. Isso reduziu imediatamente os tickets de suporte relacionados a “erros fatais”.
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Backlog (Crescimento Futuro): Para manter o desenvolvimento focado, categorizei funcionalidades avançadas, como um sistema de notificações proativas e alertas em tempo real, dentro de um backlog estratégico. Isso permitiu estabilizar primeiro a operação principal, mantendo uma roadmap clara para evoluções futuras.
O Impacto: A tela de Status transformou um processo baseado em tentativa e erro em uma experiência guiada. Ao resgatar e refinar um conceito que havia falhado no sistema legado, restauramos a confiança dos usuários e permitimos que até operadores iniciantes resolvessem problemas de forma independente antes de recorrer ao suporte.

Parte da tela de Status Legada, que foi removida

Conceito

O MVP, agora clicável
Soluções: Arquitetura Escalável e UI Moderno
Alguns dos componentes adaptados, desenhados para necessidades dos usuários, e o conceito
Tabelas:



Customização de componentes do Angular Material (MD2)
Em plataformas B2B de alta densidade, tabelas de dados são o principal motor de eficiência operacional. Elas representam a espinha dorsal de como a complexidade é organizada e simplificada. Quando essas tabelas não se alinham às necessidades dos usuários ou deixam de oferecer direcionamento claro, a usabilidade de todo o sistema fica comprometida. Neste projeto, refinar a estrutura das tabelas não foi apenas uma questão de interface, mas uma necessidade estratégica para reduzir fricções operacionais.
Expansion Panel:
Este componente hierárquico utiliza divulgação progressiva para organizar grandes volumes de dados em fluxos complexos de B2B. Ao revelar camadas profundas de lógica apenas quando necessário, ele reduz a carga cognitiva e previne erros operacionais, garantindo uma experiência escalável e intuitiva para o gerenciamento de regras de negócio complexas.

Legado


Conceito
Versão 1

MVP
Um vislumbre do conceito:

Resultados
✔️ 100% de Sucesso na Migração
Superamos a resistência inicial, e o sistema foi finalmente adotado por todos os operadores. Esse foi um resultado significativo, considerando que o fluxo legado anteriormente era fragmentado entre múltiplas plataformas.
✔️ Eficiência Operacional Direcionada:
No módulo de Precificação, a mudança de entradas individuais para um processamento em lote de alta velocidade resultou em uma redução de 85% no tempo operacional (de ~15s para 2s por item), economizando horas de trabalho manual durante configurações críticas de eventos.
✔️ Escalabilidade Operacional
A equipe de engenharia relatou uma queda perceptível nos tickets de suporte relacionados a “erro do usuário” ou “bloqueios do sistema”. A nova tela de gerenciamento de status e as validações proativas de dados passaram a permitir que os usuários resolvessem problemas de forma independente.
✔️ Crescimento Estratégico
Foi entregue um blueprint completo de design e padrões de interação, garantindo que o sistema possa escalar para suportar tipos de eventos mais complexos sem aumento proporcional na necessidade de suporte. O sistema deixou de ser um peso técnico e passou a atuar como um produto centrado no usuário, criando uma base sólida para a expansão do negócio em eventos de maior complexidade.
✔️ Otimização de Onboarding
Com a implementação de maior clareza semântica e feedbacks preditivos, reduzimos significativamente a curva de aprendizado. Operadores que antes precisavam de mais de 4 semanas para dominar fluxos básicos passaram a atingir autonomia em uma fração desse tempo.
Aprendizados e Próximos Passos ✏️
Este projeto reforçou que sistemas legados exigem adaptação, não ruptura. Aprendi que limitações técnicas não são apenas obstáculos, mas componentes ativos no processo de tomada de decisão em design.
Próximos Passos: Apesar dos avanços conquistados, a base do front-end ainda permanece como prioridade para futuras refatorações. Também buscamos implementar métricas quantitativas para validar de forma mais consistente as melhorias qualitativas observadas até aqui.